Oi, eu sou o Zil.
Queria começar contando que minha vida não foi fácil. Tenho uma história sofrida e de muitos acontecimentos.
Eu não costumo compartilhar as minhas próprias histórias, a não ser para algumas pessoas muito próximas, pessoas da família ou um ou outro amigo para quem eu conto um detalhe ou outro muito específico mas sem falar muito.
Mas tenho passado por um processo de mentoria com a @hellempedroso e esse processo todo tem me ajudado a enxergar a vida de um jeito diferente, e enxergar a partir da minha história, as minhas próprias evoluções e tudo que passei na minha vida com outro significado.
Essa ressignificação tem sido importantíssima para uma evolução para minha carreira e como um indivíduo em si que deseja e sabe que tem potencial para compartilhar muito conhecimento e muitos aprendizados.
Dito isso, faz tempo que eu tenho a vontade de compartilhar algumas dessas histórias por aqui e as vezes eu evito, as vezes eu fujo e as vezes só não tenho priorizado isso, portanto nós próximos dias vou tentar, na medida do possível, e assim que a inspiração ou a lembrança de alguma história vier, contar em detalhe algumas dessas histórias.
Essas histórias são um exemplo do que alguém que saiu de uma situação muito ruim, pode fazer e também para demonstrar que, ainda que a gente saia de uma situação de vulnerabilidade social, pobreza, violência, etc., a gente consegue, se tiver oportunidade.
E principalmente, tem espaço pra gente.
E quando a gente chega lá, esse espaço é nosso também e nada nem ninguém pode fazer você sentir que não.
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Era uma vez uma mochila e uma alça que arrebentou.
Eu estudei em um colégio de periferia e a situação nunca foi muito boa pra uma família de 6 irmãos e de uma mãe que dava conta de trabalhar e sustentar todos.
Lembro de uma vez que minha mochila de duas alças arrebentou. Como sempre dava jeito, tirei uma alça que estava arrebentada e juntei com a outra, invertida, fazendo uma mochila transversal, ficou muito bom, tava na moda na época esse tipo de mochila então resolvi bem..
Mas como não era uma mochila que sido desenhada pra ser desse jeito, lembro de passar dias com a mochila escapando dos ombros já que não tinha equilíbrio com o peso dos materiais, e eu sempre segurando ela com uma mão.
Perto de casa tinha um lixão.
Em uma rua larga de três pista de sentindo único que ligava umas das áreas nobres da cidade a região industrial tinha um bairro.
Quase no final dessa avenida uma dos maiores campus universitários da cidade.
E na beira dessa avenida, próximo de casa, um terreno baldio, onde, vez ou outra, alguém decidia jogar lixo.
As vezes, o que era lixo pro outro, era um tesouro pra gente.
Um dia, andando por ali, vejo, no meio do mato, uma mochila preta.
Entre torrões de barro e entremeada de grama, de tanto tempo que estava ali, estava ela.
Meu coração palpitou.
“E se tiver boa?”
Fui lá, puxei do meio da grama e da terra, e vi em primeira mão as alças — prioridades, né — e estavam boa.
Tirando uma sujeira ou outra, alguns arranhões e o mato que estava nela, estava ótima.
Fui direto pra casa e já joguei no tanque de pedra, que era de concreto — pedra moldável, pra quem nunca ouviu a expressão.
Água, sabão e escova fizeram o trabalho muito bem.
Era sábado, e até domingo, mais tardar segunda de manhã estaria seca.
Dito e feito.
No domingo a noite, empolgado, transferi os materiais de uma mochila para a outra.
Na segunda, no colégio, passou a manhã e ninguém reparou.
E tudo bem, eu dava graças a deus por isso. Só eu sabia do alívio que era uma mochila em bom estado.
(É bobo pensando agora, eu sei — Hellem, não briga comigo quando ler, eu sei que não é bobo, só me veio isso na hora)
Mas foi uma coisa boba importante pra mim naquele momento.
Ter algo “novo” (diferente).
Ter “conseguido” sozinho.
Ter dado conta sozinho.
Eu tava feliz.
Até que um amigo olha e diz.
— Olha, ZiL tem um mato na sua mochila.
Eu paraliso.
Lembro dela no lixão, no meio do mato, cheia de terra, e matos presos e penso.
“Não fiz direito”
Olho a mochila, e estava lá, curiosamente entremeado na fibra.
O amigo só puxa e arranca.
Ele mesmo comenta.
— Deve ter sido quando você deixou no chão lá fora.
“A vida não está tão ruim!”. Eu penso na hora.
“A gente até que conseguiu”, eu tô pensando agora.